A Ilusão da Autonomia Perdida: Por Que Somos Sempre os Autores do Sentido da Nossa Vida?
Este texto convida o leitor a encarar uma das verdades mais desconcertantes da existência: a de que nunca estivemos à margem da própria vida, mesmo quando assim acreditamos. Em uma reflexão densa e sensível, Flávio Sousa explora o paradoxo da liberdade humana, aquela que julgamos ter perdido, mas que sempre esteve operando silenciosamente por trás de cada escolha, omissão e consentimento. Trata-se de uma leitura voltada a quem se interessa pela angústia da condição humana, pela psicologia existencial, pela filosofia da responsabilidade e pelos conflitos íntimos entre autonomia, sentido e consciência. Um ensaio que não oferece respostas prontas, mas provoca deslocamentos internos, exigindo do leitor não apenas atenção, mas disposição para reconhecer-se como autor, e não espectador, da própria história.
Por Flávio Sousa
2/10/20263 min ler
Falta-nos, muitas vezes, a consciência de que a tarefa mais fundamental da existência não nos é delegada: compete a nós desenhar o significado da própria vida. Procuramos sentidos prontos, mapas seguros, roteiros já escritos, como se viver fosse apenas cumprir um script previamente definido. No entanto, a vida não se apresenta como um manual, mas como um espaço aberto, em constante construção. O sentido não é encontrado, é criado. E essa criação não acontece apenas em grandes decisões, mas sobretudo nos pequenos gestos, nas escolhas silenciosas, nas permissões que concedemos diariamente.
Quando finalmente nos damos conta disso, percebemos que pouco importa a altura em que estamos da vida, o tempo já vivido ou a fase em que nos encontramos. Não existe um “tarde demais” para assumir o leme da própria existência. Em qualquer momento, podemos redirecionar o caminho, reinterpretar o passado e ressignificar o presente. Existir é escolher, escolher como agir, como reagir, como olhar para o que nos acontece. O problema surge quando deixamos de estar atentos às escolhas que fazemos ou às decisões que permitimos que sejam feitas por nós. Nesse estado de distração existencial, passamos a acreditar que perdemos a autonomia, como se algo externo tivesse nos roubado a liberdade.
Aqui emerge um paradoxo profundo: a autonomia que julgamos ter perdido jamais deixou de existir. Ela sempre esteve ali, silenciosa, sustentando cada passo dado, mesmo quando acreditávamos estar apenas sendo levados pelas circunstâncias. A falta não é de liberdade, mas de consciência. Mesmo na inércia, mesmo na omissão, há escolha. Até o não escolher é, em si, uma decisão. Somos nós que, muitas vezes sem perceber, escolhemos o direcionamento da vida ao aceitar, adiar, tolerar ou ignorar.
Não há, portanto, saída confortável. Nossa liberdade nos condena a carregá-la sobre os ombros. Cada ato nos convoca a um posicionamento, cada acontecimento exige uma percepção, um entendimento, uma resposta, ainda que silenciosa. Não podemos transferir essa responsabilidade sem também abrir mão de nós mesmos. Tudo é nosso: os passos, os desvios, as quedas e os recomeços. Reconhecer isso não é um peso inútil, mas uma possibilidade radical: a de assumir a autoria da própria existência e, com ela, a coragem de viver de modo mais consciente, mais lúcido e, sobretudo, mais verdadeiro.
Talvez valha a pena perguntar-se, com honestidade e calma, em que medida você tem afirmado ou adiado essa responsabilidade silenciosa que acompanha o fato de estar vivo. Cultivar essa consciência não exige rupturas dramáticas, mas atenção; não demanda grandes discursos, mas decisões íntimas e consistentes. Afinal, tornar-se consciente da própria liberdade é um movimento que não faz barulho, mas reorganiza toda nossa arquitetura de viver.
O ponto decisivo talvez não esteja em mudar imediatamente o rumo da vida, mas em sustentar um novo tipo de atenção sobre ela. Uma atenção que reconhece que cada pensamento cultivado, cada emoção alimentada e cada escolha repetida é, silenciosamente, um ato de afirmação ou de negação de si mesmo. Desenvolver uma consciência afirmativa não significa eliminar dúvidas ou conflitos, mas assumir a responsabilidade de dialogar com eles de forma lúcida, sem terceirizar o próprio existir.
Quando essa consciência começa a se consolidar, algo essencial se transforma: o passado deixa de ser apenas um fardo imutável e o futuro deixa de ser uma ameaça abstrata. Ambos passam a ser matéria viva de elaboração consciente. A vida, então, já não acontece apesar de nós, mas a partir de nós. E é nesse ponto que o sentido deixa de ser uma promessa distante e passa a ser uma prática diária.
A autonomia, afinal, nunca esteve perdida e, por isso, não se conquista em um único gesto; ela se afirma continuamente. E toda afirmação consciente se fortalece quando encontra sentido e espaço para ser elaborada, compreendida e integrada. Para quem sente que este texto não apenas foi lido, mas reconhecido, talvez este seja um bom momento para permitir que essa consciência encontre um caminho mais claro de desenvolvimento, com acompanhamento qualificado, escuta atenta e rigor conceitual à altura da complexidade de existir.
