Niilismo: o abismo e o limiar

De uma carta que, em 1799, deu nome filosófico ao nada, até o personagem que o levou às últimas consequências, passando pelos quatro modos que Deleuze decompôs a partir de Nietzsche — uma travessia pelo vazio sob o qual ainda pode brotar o novo.

NIETZSCHE E EXISTÊNCIA

Por Flávio Sousa

4/16/20247 min ler

man in red crew neck shirt standing near white curtain
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Há uma frase que ressoa através de tradições distintas, sempre com a mesma cadência de advertência: somos pó, e ao pó haveremos de voltar. Quase sempre se ouve essa sentença como ponto final, o anúncio antecipado de que tudo o que se constrói será, ao fim, desfeito. Mas há uma outra forma de ouvi-la, menos resignada e mais inquietante: e se esse retorno ao nada não fosse o fim de um percurso, mas a condição mesma de qualquer começo?

Foi mais ou menos essa inquietação, levada ao limite, que fez nascer o termo que hoje carregamos com tanta naturalidade. No final do século XVIII, um filósofo alemão pouco lembrado fora dos manuais de história da filosofia, Friedrich Jacobi, escreveu a um colega, o também filósofo Fichte, uma carta em que o acusava de algo que parecia, à época, um insulto de peso filosófico máximo: dizia que seu sistema, ao fazer do pensamento a única fonte de tudo o que existe, conduzia inevitavelmente ao nada. Idealismo, escreveu Jacobi, é niilismo. Foi essa carta, datada de 1799, que firmou pela primeira vez o niilismo como conceito filosófico preciso, não apenas como velha intuição sobre o nada, mas como diagnóstico de uma estrutura inteira de pensamento. Há, num certo trecho dessa correspondência, uma confissão de Jacobi que antecipa, quase palavra por palavra, o que décadas depois ganharia rosto e voz na literatura russa: ele escreve que não saberia responder o que é o bem, caso Deus não existisse. Faltava-lhe, ainda, quem levasse essa mesma intuição até a sua conclusão mais radical.

É nesse ponto que o niilismo deixa de ser uma resposta e se revela como uma pergunta mal compreendida. O niilismo, em sua forma mais nua, é a ausência de um fundamento último (não há um sentido que preceda a existência e a justifique de fora. Mas dizer isso é apenas o começo, porque a história desse conceito, antes de chegar a um diagnóstico, atravessou estágios) e foi precisamente um diagnóstico o que dele fez Nietzsche, levando a investigação a um rigor que nenhum pensador anterior tinha sustentado. Ele não tratou o niilismo como curiosidade filosófica externa a si: investigou-o primeiro em sua própria experiência, na desconfiança que sentia em relação aos próprios valores herdados, e depois projetou esse mesmo olhar sobre a cultura em que vivia, encontrando ali, disfarçados de progresso, de moral, de ciência, os sintomas do mesmo vazio que reconhecia em si. Esse duplo movimento, voltar-se para dentro antes de apontar para fora, é o que transforma sua leitura do niilismo em algo mais do que teoria: um diagnóstico clínico, no sentido mais estrito da palavra, exercido sobre si mesmo e sobre o tempo que o cercava.

A vida como sombra de outro mundo

Foi Gilles Deleuze, lendo Nietzsche quase um século depois, quem deu nome preciso e contorno definido a essa progressão, decompondo o que em Nietzsche aparecia disperso, espalhado em aforismos e observações, numa sequência de quatro modos que se sucedem e se aprofundam. Sem essa sistematização, o niilismo nietzschiano correria o risco de permanecer apenas intuição poderosa; com ela, torna-se instrumento de diagnóstico, algo que se pode reconhecer e nomear quando aparece.

A forma mais antiga desse vazio nem sempre se reconheceu como vazio. Por muito tempo, recusou-se a admitir que o mundo concreto fosse insuficiente, e por isso inventou outro, superior e verdadeiro, para o qual a vida real seria apenas sombra ou preparação. Esse é o niilismo em sua face negativa: nega-se a vida tal como ela se dá, não abertamente, mas em nome de algo que se supõe estar acima dela, um mundo ideal, uma ordem moral absoluta, uma verdade transcendente que faria desta existência um mero corredor de passagem. O preço dessa negação é alto, ainda que disfarçado de consolo: é a vida real que se torna sombra, e a sombra que se torna critério de tudo.

Quando esse mundo superior, finalmente, deixa de convencer; quando a verdade transcendente que sustentava o sentido da existência perde sua força e seu lugar, não desaparece com ela o impulso de negar a vida. Apenas muda de roupagem. Surge então o niilismo reativo: já não se nega o mundo em nome de um céu, mas em nome de valores que se pretendem novos, como o progresso, a razão, a ciência, e também o Estado, quando este se apresenta como nova totalidade a ser servida, novo absoluto diante do qual o indivíduo deve se ajustar e se justificar, mantendo intacta, sob nova forma, a mesma desconfiança em relação à vida tal como ela se apresenta, imediata e sem garantias. A continuidade entre essas duas faces é mais profunda do que parece: ambas precisam de algo fora da vida para justificá-la, e ambas, no fundo, desconfiam de que a vida, sem essa justificação externa, valha a pena ser vivida.

Quando nada é mais proibido

Há, porém, um terceiro momento, mais silencioso e mais perigoso do que os dois anteriores, porque já não nega nada com convicção. É o niilismo passivo: a vontade, esgotada de tanto negar e de tanto buscar fundamentos que sempre se revelam insuficientes, simplesmente deixa de querer. Não há mais energia nem para a negação. Resta a indiferença, a acomodação, a sensação de que nada importa o suficiente para merecer luta, a paralisia de quem habita o vazio sem nele reconhecer convite algum para criar.

Quem, de fato, levou essa intuição às últimas consequências foi a literatura, não a filosofia acadêmica. Ivan Karamázov, personagem que Dostoiévski lançou ao mundo décadas depois de Jacobi escrever sua carta, formula com brutal economia o que o filósofo alemão apenas temia: se Deus não existe, então nada é proibido, tudo se torna permitido. É a mesma vertigem, mas sem o amparo da fé que Jacobi ainda buscava preservar. Onde Jacobi recuava diante do abismo e apostava na crença como única saída razoável, o personagem russo nele se lança sem rede de segurança alguma e, o que descobre não é liberdade, mas o colapso de qualquer critério capaz de distinguir um ato de outro.

Quando nenhum valor é mais sagrado, qualquer ação se torna, em tese, possível — e é precisamente essa possibilidade sem freio que se revela, ao final, insuportável, e não libertadora.

Do abismo ao limiar

E é exatamente nesse ponto mais baixo, quando a negação se esgotou e a vontade já não tem mais para onde recuar, que se torna possível o último movimento, o único que Nietzsche chamou verdadeiramente de afirmativo: o niilismo ativo. Aqui a destruição dos valores antigos deixa de ser ponto de chegada e se torna ponto de partida. Já não se trata de lamentar a ausência de um fundamento, nem de buscar outro para substituí-lo, mas de assumir, com todo o peso que isso implica, a tarefa de criar o que antes se esperava encontrar pronto. A diferença entre essa face e as três anteriores não está no grau de desilusão reconhecido: todas partem do mesmo vazio. Está no que se faz depois de reconhecê-lo: onde as outras se afogam ou se acomodam, esta atravessa; onde as outras veem o abismo como sentença, esta o vê como limiar.

Esse atravessar não é indolor, e seria desonesto apresentá-lo como tal. Exige desfazer-se de crenças que, mesmo limitantes, ofereciam abrigo; exige questionar estruturas que, mesmo opressoras, davam à existência uma forma reconhecível. Camus, sem recuar diante do absurdo que essa constatação revela, propôs que a única resposta digna não é a resignação ao vazio, nem a fuga para um sentido importado de fora, mas a revolta, o gesto de quem, reconhecendo que a vida não oferece razão alguma evidente para ser vivida, decide vivê-la de qualquer modo, e nesse exato gesto encontra algo que se assemelha, sem nunca se confundir com certeza, a um sentido.

Não se trata, portanto, de encontrar um sentido pronto que dissolva o niilismo, isso seria apenas substituir um fundamento ausente por outro, igualmente externo, igualmente impositivo: seria regredir ao primeiro estágio, disfarçado de solução. Trata-se de algo mais exigente: permanecer no vazio o tempo suficiente para reconhecer que ele não precisa ser preenchido por uma verdade alheia. Pode ser habitado por uma criação própria, refeita a cada instante, sem garantia de permanência.

Há, nesse percurso que Nietzsche traçou primeiro em si mesmo, algo que interessa diretamente a quem se dedica a entender a vida psíquica concreta de cada pessoa. Antes de ser tese filosófica, o niilismo é experiência, e experiências, ao contrário de teses, podem ser reconhecidas quando se sabe o que procurar. Identificar em que estágio se está, se há um mundo ideal sustentando a recusa do real, se há um valor novo apenas disfarçando o antigo, se resta apenas a indiferença de quem já não espera nada, ou se há, finalmente, espaço para criar, esse é precisamente o tipo de reconhecimento que a psicologia fenomenológico-existencial considera mais valioso do que qualquer diagnóstico genérico. Foi esse exatamente o gesto de Nietzsche: olhar para dentro com o mesmo rigor com que olhava para a cultura ao redor, e nomear o que via, mesmo quando o que via era difícil de admitir.

O niilismo, visto assim, não é uma doença pontual da cultura nem um destino inevitável, é uma encruzilhada que se renova a cada vez que algo em nós se desfaz e nenhuma certeza imediata vem ocupar o lugar do que se perdeu. Nesse momento, exatamente nesse momento, decide-se, ainda que sem saber, entre negar a vida em nome de outra coisa, esgotar-se na indiferença, ou atravessar o vazio como quem reconhece, nele, a única condição sob a qual algo verdadeiramente novo ainda pode começar. Reconhecer em que ponto dessa travessia alguém se encontra não é exercício acadêmico, é o primeiro passo de toda existência que ainda pretende, de fato, se afirmar.

O abismo também pode ser limiar.

A psicologia fenomenológico-existencial não promete um sentido pronto, mas oferece um espaço sério para atravessar o que ainda parece vazio. Se algo deste texto encontrou eco em você, talvez valha a pena conversar.