O que é, realmente, a Psicanálise Existencial Sartreana.

Não é uma escola de terapia, nem um dicionário de símbolos a decifrar. É um método para tornar visível o único nexo que realmente explica uma pessoa: seu projeto de ser. Um mapa completo — para onde aponta, o que cuida, como funciona, e por que continua relevante.

SARTRE E PSICOLOGIA

Por Flávio Sousa · Psicólogo Clínico CRP 02/21.404 · Fenomenologia Existencial

10/29/20249 min ler

Bloco de mármore bruto transformando-se em contorno de um rosto humano
Bloco de mármore bruto transformando-se em contorno de um rosto humano

Um caso, por mais elucidativo que seja, não substitui a pergunta mais simples e, talvez, mais necessária: o que é, exatamente, esse método? Para onde ele aponta. O que ele se propõe a cuidar. Como funciona, na prática. Quais são suas peculiaridades mais decisivas. E por que, quase um século depois de formulado, ele ainda tem algo preciso a dizer a uma época que trata o sofrimento, cada vez com mais frequência, como desequilíbrio a corrigir?

Esse é o texto que faltava. Vamos direto ao ponto.

Uma dor não é um erro de percepção — é um sentido a decifrar.

Há um momento, em quase toda primeira sessão, em que alguém descreve algo que sente sem conseguir justificá-lo. "Eu sei que não devia sentir isso", diz. Ou: "não faz sentido, mas é real". Diante dessa frase, existem, essencialmente, dois caminhos possíveis para quem escuta.

O primeiro caminho trata a dor como ruído: um sinal impreciso, gerado por uma causa que está em outro lugar, um desequilíbrio bioquímico, um condicionamento, um traço de personalidade e, que precisa ser corrigido ou neutralizado para que a pessoa volte a funcionar. Nessa lógica, o que o sujeito sente não é, em si, importante; importa apenas a que categoria esse sintoma pertence e qual técnica o elimina.

O segundo caminho, o da tradição fenomenológico-existencial, e o que orienta tudo o que Sartre propôs, parte de uma convicção diferente: uma dor é dor porque é assim que ela é percebida. Ela não é um defeito de percepção a ser corrigido por uma verdade mais "objetiva" vinda de fora. Ela já carrega, em si mesma, um entendimento, ainda não articulado, ainda não nomeado, mas presente, que pode ser explorado, ampliado e, eventualmente, transcendido. Não eliminado. Transcendido: superado por uma compreensão mais ampla que o próprio sujeito constrói, sem que isso signifique apagar o que foi sentido como se nunca tivesse sido real.

Essa distinção tem nome técnico, e vem de antes de Sartre. O psiquiatra-filósofo Karl Jaspers, em 1913, já separava a compreensão — atingir o sentido psíquico "por dentro", a partir da experiência vivida do próprio sujeito — da explicação causal, que busca uma origem externa, mecânica, do tipo que se aplica a fenômenos da natureza. Sartre herda essa distinção e a radicaliza: para ele, não se compreende a doença a partir de uma categoria que a antecede. Compreende-se a doença a partir do existir concreto da pessoa.

Essa é a primeira peculiaridade decisiva do método, e a razão de tudo o que vem a seguir: a psicanálise existencial não chega a uma pessoa de fora para lhe explicar o que ela sente. Ela parte do que a pessoa já sente, exatamente como sente, e busca o nexo interno que dá sentido àquilo, respeitando, antes de qualquer interpretação, a forma como o próprio sujeito vive sua experiência.

O que a psicanálise existencial não é.

Antes de dizer o que ela é, vale desfazer três equívocos comuns, porque eles distorcem, de formas diferentes, o que Sartre realmente propôs.

Não é uma escola de terapia com técnica padronizada. Sartre nunca atendeu em consultório. O que ele deixou foi um método de investigação, explicitado no capítulo "Psicanálise Existencial" de O Ser e o Nada (1943) e complementado, quase quinze anos depois, em Questão de Método, e, um conjunto de demonstrações práticas: as biografias que escreveu sobre Baudelaire, Genet e, na obra mais ambiciosa de sua vida, sobre Gustave Flaubert. Ele próprio reconheceu o problema com lucidez: "minha psicanálise ainda não encontrou o seu Freud", ou seja, faltava-lhe alguém que a colocasse, sistematicamente, em prática clínica.

Não é um dicionário de símbolos universais. Aqui está uma das críticas mais contundentes de Sartre à psicanálise freudiana clássica: paro o pensador, ela costuma generalizar (uma cobra significa isto, uma queda significa aquilo) desconsiderando a idiossincrasia de cada caso. Para Sartre, nenhum símbolo tem sentido fixo fora da história concreta de quem o vive. O mesmo gesto pode significar coisas radicalmente diferentes em duas pessoas diferentes, porque o que importa não é o símbolo, é o projeto de ser que o gesto expressa.

Não é uma arqueologia do inconsciente. Sartre rejeita, de forma explícita e sustentada, a ideia de um inconsciente nos termos freudianos, um compartimento psíquico inacessível à consciência, governado por mecanismos como a censura ou o recalque. Sua objeção é quase uma pergunta retórica que resume tudo: como conceber um saber que ignora a si mesmo? Se a censura precisa "saber" o que reprimir para reprimi-lo, ela já é, em algum nível, consciência; não pode ser, ao mesmo tempo, ignorância de si. Por isso, a tarefa nunca é escavar algo oculto. É decifrar algo que já está, de algum modo, vivido, só que disperso demais, e não conceituado, para ser lido sem método.

O que ela é: decifrar o projeto que faz de alguém quem é.

Sartre define o objetivo do método com uma frase que merece ser citada com precisão: trata-se de elucidar, "de forma rigorosamente objetiva, a escolha subjetiva pela qual cada pessoa se faz pessoa". Isto é: cada gesto, emoção, raciocínio ou gosto de alguém não é um dado isolado, é a expressão parcial de algo maior, um projeto de ser, que organiza e dá direção a tudo o que essa pessoa faz no mundo. Decifrar esse projeto é o trabalho da psicanálise existencial.

Conceito central · Sartre

O singular-universal.

Toda pessoa, para Sartre, é ao mesmo tempo absolutamente singular — irredutível a qualquer outra — e inteiramente universal, na medida em que é resultado de sua época, sua cultura, sua classe, sua família. Compreender alguém não é escolher entre essas duas dimensões. É enxergar como o singular se faz a partir do universal, e como o universal só existe, concretamente, encarnado num singular. Por isso o método nunca isola a pessoa de seu contexto histórico — nem a dissolve nele.

Esse é o ponto onde se cruzam as duas grandes ferramentas metodológicas que Sartre desenhou. A primeira é o método compreensivo: comparativo, sintético; olha-se para o conjunto dos comportamentos de alguém, não para um sintoma isolado, buscando o fio que os une. A segunda é o método progressivo-regressivo: descer do gesto presente até a situação concreta (carência, família, classe, época) que o tornou possível; e subir de volta dessa situação até o gesto, agora visto não como efeito mecânico, mas como resposta livre, ainda que condicionada, a tudo aquilo.

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Como funciona, na prática: três momentos, não um diagnóstico.

Sartre não teve um consultório, mas deixou claros os três momentos que estruturam o método, e que, hoje, psicólogos de orientação sartriana seguem efetivamente na clínica.

Os três momentos do método

1. Demarcação do fenômeno. Parte-se sempre de um problema concreto, não de uma teoria. Quando Sartre decidiu escrever sobre Flaubert, começou por uma única carta em que o escritor confessava uma "melancolia natural" e uma "ferida profunda, sempre dissimulada". É o equivalente exato da queixa inicial de um paciente: o ponto de partida nunca é abstrato.

2. Elaboração da compreensão. A partir desse problema, investigam-se as condições de possibilidade, o contexto antropológico (época, cultura, classe) e o contexto sociológico (família, relações concretas), sempre reenviando-os à apropriação singular que aquela pessoa fez deles. É aqui que entra o movimento progressivo-regressivo.

3. Planejamento e intervenção. Só de posse dessa compreensão rigorosa, o que Sartre chamaria de uma "radiografia psicológica" do sujeito, é possível decidir com segurança onde e como intervir, e avaliar, depois, os resultados.

O que torna esse percurso diferente de um diagnóstico convencional é a direção do olhar. Não se parte de uma categoria (ansiedade, depressão, transtorno X) para encaixar a pessoa dentro dela. Parte-se da pessoa, no seu movimento concreto no mundo, para entender o que aquela categoria, se for o caso de usá-la, está, de fato, nomeando.

O que ela cuida: não o sintoma, mas o projeto que o sustenta.

Se a pergunta é "o que a psicanálise existencial trata", a resposta mais honesta é: ela não trata sintomas isoladamente. Trata o que Sartre chama de personalização, o processo pelo qual uma pessoa é, ao mesmo tempo, feita pelas circunstâncias e faz algo dessas circunstâncias. Uma fórmula sua resume isso com precisão quase matemática: a personalização é uma "totalização sem cessar destotalizada e retotalizada". Ou seja: a cada momento, algo de fora desfaz a unidade da pessoa (o que os outros fazem dela), e a cada momento ela a refaz (o que ela faz daquilo que fizeram dela).

É nesse "fazer algo daquilo que fizeram de nós" que mora todo impasse psicológico e toda possibilidade de mudança. Quando esse movimento de retotalização fica bloqueado, paralisado, ou se cristaliza numa única saída rígida, como aconteceu, segundo Sartre, com a neurose histérica que Flaubert "escolheu" como forma de escapar de um impasse familiar sem resolução, é aí que a psicanálise existencial tem algo a esclarecer.

Curar é transcender o problema e recolocar a questão do ser do paciente em novos termos, nos quais seu projeto e seu desejo de ser sejam viabilizados.

Conforme a leitura clínica da obra sartriana proposta por Daniela Schneider

A peculiaridade mais decisiva: o respeito ao que o Outro sente.

Se há uma única peculiaridade que separa esse método de praticamente todas as outras abordagens que tentam explicar uma pessoa, é esta: a recusa em substituir o que a pessoa sente por uma categoria mais "objetiva" definida de fora. A fenomenologia, tradição da qual Sartre nunca se desligou, tem como princípio fundador voltar às coisas mesmas, descrever o fenômeno tal como ele se dá à consciência, antes de qualquer teoria que o explique por baixo ou por trás.

Aplicado à clínica, isso significa algo muito concreto: o psicólogo de orientação fenomenológico-existencial não chega à experiência do paciente armado de uma simbólica universal pronta para decodificá-la. Chega disposto a compreender como aquela pessoa, especificamente, vive o que vive, o que aquele medo, aquela repetição, aquela dor significam dentro do projeto de ser que é só seu. O respeito não é uma cortesia opcional aqui. É condição metodológica: sem ele, não há psicanálise existencial, há apenas mais uma teoria impondo, de fora, o que a pessoa deveria estar sentindo.

É por isso que a dor, dentro dessa perspectiva, nunca é tratada como erro. Ela é tratada como mensagem ainda não decifrada — algo que a própria consciência da pessoa já contém, de forma vivida mas não necessariamente conceituada, e que o trabalho clínico ajuda a explorar, ampliar e, quando possível, transcender. Nunca apagar como se não tivesse sido real.

O que ela não chama de cura.

Vale ser explícito aqui, porque Sartre foi: a "cura", numa perspectiva existencial sartriana, nunca poderia ser uma simples aceitação de si mesmo, um autoconhecimento abstrato, ou uma adaptação às circunstâncias sociais, como propõem, segundo ele, muitas outras psicoterapias. Não que essas coisas sejam inúteis; são, simplesmente, insuficientes como meta final. Para Sartre, só há sentido terapêutico real se o processo devolver à pessoa o estatuto de sujeito de sua própria história, alguém que se escolhe em situações concretas, e não alguém ajustado a uma norma externa.

É o que aconteceu, no primeiro esboço literário dessa ideia, com Roquentin, personagem de A Náusea: ele não "aceita" o vazio que sente. Ele retoma sua história, percebe que vivia de uma narrativa de aventuras que já não sustentava sentido algum, e redefine, ativamente, seu projeto de ser. Torna-se, ele mesmo, autor de sua vida no sentido mais literal: decide escrever. Não é coincidência que seja esse o desfecho. É a tese inteira de Sartre, em miniatura.

Por que isso ainda importa, na contemporaneidade.

Quase um século depois de formulada, a psicanálise existencial não é peça de museu filosófico. Ela oferece algo que falta a boa parte do que hoje circula como "saúde mental": uma alternativa real ao impasse entre tratar o sofrimento como defeito bioquímico a corrigir (a psiquiatria reduzida a manual de diagnóstico) e dissolvê-lo num discurso vago de autoaceitação sem direção (o bem-estar genérico de mercado). Sartre oferece elementos teóricos concretos para superar a alienação, a solidão e o que ele mesmo chamaria de "enlouquecimento típico da cultura contemporânea", sem recair em nenhum dos dois extremos.

Isso não é apenas afirmação filosófica. Há registro de tentativas reais de levar essa psicologia à prática clínica: na Inglaterra dos anos 1970, os psiquiatras Laing e Cooper criaram comunidades terapêuticas inspiradas no existencialismo sartriano, fiéis apenas parcialmente, segundo a crítica acadêmica, por terem misturado o método a referenciais incompatíveis. Nos Estados Unidos, a psicóloga Betty Cannon sistematizou uma clínica sartriana mais rigorosa. No Brasil, há décadas, um núcleo de pesquisa em Florianópolis pratica e ensina essa abordagem de forma consistente. A psicanálise existencial, em outras palavras, já deixou de ser apenas teoria, só ainda não é amplamente conhecida fora de círculos especializados.

Volta-se, então, ao ponto de partida deste texto. A dor de alguém não precisa ser corrigida como se fosse um erro de cálculo, nem dissolvida em frases de conforto genéricas. Ela pode ser ouvida, com todo o rigor de um método e todo o respeito que a experiência de quem a sente merece, como aquilo que sempre foi: o primeiro rascunho, ainda confuso, de uma compreensão que só a própria pessoa pode terminar de escrever.

E essa, no fim, é a única tarefa que a psicanálise existencial se atribui — colocar essa escrita de volta nas mãos de quem a vive.

Sua dor não precisa de correção. Precisa de compreensão.

Se algo neste texto ressoou — se você reconhece em si um sentido ainda não decifrado, e não apenas um sintoma a eliminar — isso já é um movimento. O próximo pode ser uma conversa.