O que Sartre quis dizer quando disse "serei o ladrão que decidi ser": a psicanálise existencial em ato.
Um furto, uma sentença, uma vida decidida em segundos. Sartre acompanha, no caso real do escritor Jean Genet, o instante exato em que um destino imposto se converte em escolha assumida.
SARTRE E PSICOLOGIA
Flávio Sousa · Psicólogo CRP 02/21.404
6/22/20269 min ler


Há um momento, na infância de quase qualquer pessoa, em que alguém diz quem ela é, e ela passa o resto da vida decidindo o que fazer com essa frase. Jean-Paul Sartre dedicou um livro inteiro a investigar esse instante na vida do escritor Jean Genet. O que ele encontrou ali não é biografia. É a demonstração mais precisa que a filosofia já produziu de como uma pessoa se torna quem é: a psicanálise existencial, finalmente, fora da teoria e dentro de uma vida concreta.
Já escrevemos, neste blog, sobre o que Sartre entendia por psicanálise existencial e sobre o método que ele desenhou para praticá-la. Mas teoria e método, por mais rigorosos que sejam, permanecem abstratos até serem confrontados com um caso real. Sartre confrontou o seu. E o resultado, um ensaio de mais de seiscentas páginas sobre um único homem, é, para muitos leitores e para nós também, a obra mais bela que ele escreveu.
A cena: um furto, uma palavra, uma vida decidida.
Uma criança está sozinha na cozinha. Por um instante, como lhe acontece com frequência, quando a solidão pesa demais, ela se ausenta de si mesma, mergulha numa espécie de êxtase sem nome. Não há ninguém ali para vê-la. Uma gaveta se abre. Uma mãozinha se move para frente.
E então alguém entra.
Sob esse olhar, a criança volta a si, mas não para o mesmo lugar de onde tinha saído. Ela sente, de repente, que está em chamas, que é um farol, um alarme que não para de tocar. Uma voz declara, em voz alta, diante de todos: você é um ladrão. A criança tem dez anos.
Não é um castigo que a atinge ali. É outra coisa, mais funda e mais estranha: um ato que durou um segundo, abrir uma gaveta, acaba de virar, sob o efeito daquela frase, uma natureza. Ontem ela era qualquer coisa, em aberto, talvez filha de um príncipe, talvez futura santa. Hoje ela sabe, de uma vez por todas e até o fim, quem é. Não fez algo de errado: é, desde sempre e para sempre, alguém que faz o errado. Todo o tempo de sua vida futura já está decidido nessa única sentença.
Essa criança vai se chamar Jean Genet. E essa cena, reconstruída por Sartre a partir da própria obra do escritor, é o ponto de partida real, documentado, de tudo o que segue.
O erro que a psicologia comum comete diante dessa cena.
O que aconteceu, exatamente, naquele instante? Sartre é categórico: quase nada. Um gesto sem reflexão, comum a qualquer criança entediada, que de repente se torna objetivo, torna-se algo visto, nomeado, julgado por outra consciência. E é essa transição, e não o gesto em si, que vai determinar toda uma vida. A criança não mudou de natureza. Ela ganhou, da boca de outro, uma natureza que antes não existia, e que agora se espalha retroativamente sobre tudo o que ela já fez, sobre tudo o que ainda vai fazer. Cada gesto futuro, mesmo o mais inocente, comer, dormir, beijar a mãe adotiva, vira prova suplementar de uma essência da qual ninguém mais duvida, exceto, por um instante, uma voz tímida dentro dela mesma, que logo se cala.
Ao redor dessa criança, os aldeões explicam tudo com uma clareza que parece definitiva: sangue ruim, hereditariedade obscura, "um pedaço do velho bloco". Tudo se encaixa, dizem eles. Mas essa clareza é a clareza falsa de quem já decidiu não perguntar mais nada. É exatamente o erro que qualquer psicologia que explica uma pessoa somando tendências comete, substituir uma pessoa por uma substância, e transformá-la, no mesmo gesto, num objeto entre objetos, algo que se descreve sem nunca mais se interrogar.
Conceito central · Sartre
A escolha original não é uma natureza.
Para Sartre, nenhuma pessoa é explicada por uma soma de traços ou tendências herdadas. Há, sim, um projeto fundamental que organiza cada gesto de uma vida — mas esse projeto é uma escolha livre, não um dado recebido. Confundir os dois é o erro que toda psicologia substancialista comete: ao explicar demais, deixa de ver a pessoa que poderia escolher diferente.
A conversão: quando a sentença se torna escolha.
Mas essa não é a última palavra. Sartre situa, alguns anos depois desse choque, um segundo momento, mais silencioso e muito mais decisivo: a conversão. A criança que foi esmagada pela sentença dos outros, em algum ponto entre os dez e os quinze anos, faz algo que ninguém lhe pediu para fazer. Ela pega a maldição que lhe jogaram, vinda do passado obscuro da própria mãe, do veredicto da aldeia, e, em vez de simplesmente sofrê-la, projeta-a para diante de si: fará dela seu futuro. O que era uma restrição imposta torna-se uma missão escolhida.
Eu era um ladrão. Serei o Ladrão.
Jean Genet, conforme reconstruído por Sartre em Saint Genet, Ator e Mártir
Não é mais o autor acidental de um furto. É alguém com uma vocação, quase um sacerdócio às escuras. E é exatamente neste ponto que a diferença entre destino e projeto, entre essência e escolha, deixa de ser uma sutileza filosófica e se torna concreta, visível, quase tátil.
O poder de rejeitar o que se escolheu.
Porque Sartre não deixa por menos: se essa criança tem o poder de reivindicar a identidade que lhe impuseram, então, pela própria lógica do ato, ela também tem o poder de rejeitá-la, de mudá-la a qualquer momento. Se fosse de fato uma "natureza", como acreditam os aldeões, não haveria liberdade nenhuma em reivindicá-la: bastaria sofrê-la, como se sofre a cor dos próprios olhos. Mas o gesto mesmo de assumir essa identidade, de transformá-la em profissão de fé, denuncia que não se trata de natureza alguma. É escolha. E escolha, por definição, podia ter sido outra.
Vale notar a diferença para um conceito que já tratamos por aqui: a má-fé. Quem está em má-fé finge, para si mesmo, que não tem escolha, trata a própria liberdade como se fosse uma coisa fixa, para não sentir o peso de ser quem decide. Genet faz o movimento inverso, e mais raro: olha de frente para a sentença que lhe deram, reconhece que ela não precisava ser obedecida e, ainda assim, escolhe obedecê-la, conscientemente, como quem assina um contrato que sabe estar assinando. Não é fuga da liberdade. É o uso mais lúcido e mais perturbador que se pode fazer dela.
A contradição não se resolve — e essa é a parte mais honesta do método. Sartre chega a desenhar, lado a lado, duas exigências que coexistem em Genet sem nunca se fundir numa fórmula limpa: de um lado, o Ser — objeto, fatalidade, tragédia, aquilo que simplesmente é; de outro, o Fazer — sujeito, liberdade, comédia, aquilo que se escolhe a cada instante. Genet quer, ao mesmo tempo, ser mau porque pratica o mal, e praticar o mal porque é mau.
Essas duas exigências são irredutíveis uma à outra; não há síntese lógica que as una sem perda. A psicanálise existencial não promete desfazer esse nó. Promete apenas mostrá-lo com toda a precisão de que for capaz — e essa honestidade é onde o método encontra sua forma mais bela.
De onde vem a sentença: carência, aldeia e duplicidade.
Mas essa escolha, por mais livre que seja em sua origem, não cai do céu. Ela tem material, e o caso de Genet mostra, com uma nitidez quase documental, o que Sartre já havia formulado em Questão de Método: o projeto nasce sempre de uma carência situada, histórica, concreta. A sentença que condena essa criança só pode vir, explica Sartre, de uma comunidade pequena, fechada, com um sistema simples e rígido de proibições, uma aldeia, não uma cidade. É essa estrutura social específica que torna possível a indignação difusa, o castigo desproporcional, a frase que sela uma vida inteira.
E mais: a criança vive, ao mesmo tempo, dois registros de existência que não coincidem. Para os camponeses que a criam, ela é um indivíduo concreto, com nome e rosto. Para uma repartição distante, a Sociedade Nacional encarregada de crianças abandonadas, ela é um número administrativo, um caso entre milhares. É precisamente essa duplicidade, o particular da aldeia contra o anonimato abstrato da burocracia, que abre dentro dela um espaço mínimo de distância de si mesma: um primeiro grau de liberdade reflexiva diante da sentença que lhe impuseram. A situação não decide o projeto; mas é o material bruto que o projeto vai ter de assumir, recusar ou transformar.
O método em funcionamento — regressão e progressão
Descer da cena do flagrante até a estrutura social que a tornou possível — eis o momento regressivo. Subir de volta dessa estrutura até o gesto, agora visto não como efeito mecânico de uma vila moralista, mas como resposta livre, ainda que constrangida, a essa vila — eis o momento progressivo.
Repetido ao longo da vida — e Sartre mostra que Genet revive sua "crise original" voluntária e ritualmente, em cerimônias que ele mesmo recria —, esse movimento não traça um círculo fechado. Traça uma espiral: cada nova volta passa pelos mesmos lugares, mas num nível mais profundo de integração e complexidade.
O que isso ensina sobre a clínica — e sobre lucidez.
É por isso que esse caso, mais do que qualquer formulação teórica, devolve ao método aquilo que toda teoria corre o risco de perder: a sensação física de que se está diante de uma pessoa, e não de um diagrama. A psicanálise existencial não nasceu para provar que somos infinitamente maleáveis, livres de qualquer peso. Nasceu para mostrar que mesmo o peso mais brutal, uma infância marcada para sempre por uma palavra pronunciada em público, uma sentença social que fecha todas as portas, ainda deixa, no fundo de si, um espaço onde alguém decide o que fazer com aquilo que lhe fizeram.
Genet não escolheu ser chamado de ladrão. Escolheu, isso sim, o que essa palavra significaria para o resto de sua vida, e foi essa escolha, e não a sentença que a provocou, que mais tarde o tornaria, para usar a ironia exata do próprio Sartre, uma espécie de santo.
Isso tem um nome no vocabulário do método: lucidez. Não cura, não diagnóstico: lucidez. O critério de que alguém chegou a ela não é arbitrário: é uma evidência que convence por si, e que, quando possível, o próprio sujeito reconhece, como quem se vê de repente num espelho. Essa lucidez não promete nada. Mas abre, pela primeira vez, a possibilidade real de ratificar a própria escolha ou de convertê-la, porque só se pode mudar de direção aquilo que se vê com clareza.
O que a psicanálise existencial não é — desfazendo equívocos.
Vale, antes de encerrar, desfazer alguns equívocos que esse caso costuma gerar, porque eles têm consequências clínicas relevantes.
Não é o mesmo que a psicanálise freudiana do inconsciente. Para Sartre, não há porão psíquico trancado, nem barreira entre o que se sabe e o que se ignora de si. A consciência é transparente a si mesma. O que falta a Genet, no momento do flagrante, não é conhecimento escondido, é o instrumento para isolar, num conceito, algo que já vive inteiro e exposto. A tarefa nunca é escavar um segredo. É decifrar o que já está plenamente à mostra, disperso demais para ser lido sem método.
Não é uma desculpa, nem uma condenação. Mostrar que a situação de Genet o condicionou não significa absolvê-lo de ter escolhido o que fez com essa situação, e mostrar que ele escolheu não significa ignorar o peso real daquilo que lhe foi imposto. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, sem que uma anule a outra.
Não é exclusiva de casos extremos. O que torna o caso Genet valioso não é sua excepcionalidade, mas justamente o contrário: a estrutura que ele revela com clareza dramática (palavra do outro, crise, conversão, espiral, lucidez possível) é a mesma que opera, em escala mais discreta, em qualquer vida.
Não há consolo barato nisso. Sartre nunca disse que assumir a própria escolha resolve a dor que a originou; disse apenas que é o único gesto que devolve à pessoa a autoria sobre o que ela é. E é exatamente essa autoria (pesada, contraditória, nunca inteiramente racionalizável, mas irrevogavelmente sua) que a psicanálise existencial se propõe a tornar visível: não como cura, não como diagnóstico, mas como o reconhecimento, finalmente lúcido, de uma liberdade que, mesmo no fundo do poço, nunca deixou de escolher.
E então, o que você faz com a sentença que lhe deram?
Essa é a pergunta que a psicologia fenomenológico-existencial não responde por você. Que nenhum artigo, nenhum livro, nenhum terapeuta pode responder por você. Porque a resposta, se vier, será uma escolha. E as escolhas, Sartre insistiria, e Genet o provou, são sempre suas.
Há sentenças que carregamos sem nunca ter assinado.
Se algo neste texto ressoou — se você reconheceu, em alguma área da sua vida, uma palavra que alguém disse e que você nunca chegou a examinar — isso já é um movimento. O próximo pode ser uma conversa.
