O viver com fim e o viver enfim
Ele buscava um sentido que justificasse a vida antes de poder vivê-la. Só viveu, enfim, quando percebeu que o sentido não vem antes do caminho — nasce dele.
CONSCIÊNCIA E SOFRIMENTO
Por Flávio Sousa . Psicólogo Clínico . Fenomenologia Existencial
12/17/20244 min ler
Quando será o fim? Foi essa a pergunta com que ele abriu o processo, e por muito tempo foi também a única pergunta que pareceu fazer sentido fazer. Não vinha em busca de alívio para um sintoma, nem de compreensão para um conflito. Vinha em busca de um sentido, e esperava que a psicoterapia, enfim, lhe entregasse, como quem entrega uma resposta que encerra, de uma vez, a espera. Mas o que aconteceu foi algo diferente.
Falava do tempo como quem descreve um rio que já passou e que ele só pôde ver de longe, sem nunca ter entrado nele. As oportunidades, dizia, tinham se desfeito antes que ele soubesse o que fazer com elas. E o que mais o consumia não era propriamente a perda, mas a certeza, quase serena em sua crueldade, de que aquela derrota já estava traçada desde sempre, como um destino que ele apenas cumpria, sem direito de recusa. Viver, para ele, era habitar uma sentença.
∴
A chave que deveria abrir tudo
Por isso buscava sentido como quem busca uma chave: algo que, uma vez encontrado, abriria finalmente a porta para a vida que ainda não tinha começado. E aqui residia o paradoxo que sustentava seu sofrimento. Enquanto não enxergava esse sentido, enquanto a vida lhe parecia insípida, sem direção, sem chão, também não conseguia crer no processo que deveria revelá-lo. A falta de sentido alimentava a descrença na terapia; a descrença na terapia, por sua vez, selava ainda mais a falta de sentido. Era um círculo fechado, e ele girava dentro dele como prova adicional de que seu destino, de fato, já estava dado.
Cada sessão em que nada parecia se resolver era recebida não como parte de um percurso, mas como confirmação. Se o sentido não vinha, era porque não havia sentido a vir. Se não havia sentido a vir, a vida (toda ela) já podia ser lida como o que sempre fora: tempo se esvaindo diante de alguém que apenas assistia.
∴
Quando a explicação cede lugar à vida
Foi nesse ponto, e não antes, que algo começou a se deslocar: a suspeita, ainda tímida, de que talvez não existissem fins, nem causas, nem efeitos absolutos, capazes de explicar de uma vez por todas o que sua vida tinha sido ou deveria ainda ser. O que existia, simplesmente, era a vida: fluida, contingente, irredutível a qualquer fórmula que a explicasse por completo. A própria ideia de um fim, assim como a de um destino selado, começou a lhe parecer menos uma verdade sobre o mundo e mais uma construção que ele próprio vinha sustentando havia anos, sem perceber que tinha escolhido sustentá-la.
A virada não aconteceu como revelação. Não houve um dia em que o sentido finalmente lhe foi entregue, comprovando que a busca tinha valido a pena. O que aconteceu foi mais discreto, e por isso mesmo mais difícil de notar enquanto acontecia: ele foi, pouco a pouco, deixando de esperar pelo sentido para começar a viver, e foi exatamente nesse deslocamento que a vida, sem aviso, recomeçou a se mover.
Percebeu, ainda hesitante, que o sentido que buscava como destino final não era algo que se encontra antes de caminhar, pronto e inteiro, para então justificar os passos já dados. Era algo que só se revela no próprio caminhar, não como recompensa ao final do percurso, mas como textura do percurso mesmo. Não havia, e talvez nunca tivesse havido, uma resposta esperando do outro lado daquela porta sem janelas. Havia apenas o corredor, e ele, finalmente, andando por ele.
Talvez a vida não seja senão um curto e raro sopro num eterno nada, mas exatamente essa raridade, e não a busca por um sentido que a justifique, o que torna cada instante digno de ser vivido por si.
∴
Viver com fim, viver enfim
Essa diferença, sutil quando dita, foi radical quando vivida. Enquanto esperou que a vida lhe entregasse um sentido antes de poder vivê-la, viveu com fim: cada gesto, cada escolha, cada silêncio era avaliado em função de uma finalidade ausente, um propósito que deveria estar ali, em algum lugar, esperando para ser descoberto e que, por não aparecer, transformava a própria existência em prova de fracasso. Era viver instrumentalizando o presente, tratando-o sempre como meio, nunca como lugar.
Quando deixou de exigir essa finalidade como condição prévia para existir, ele não encontrou, de repente, um propósito grandioso que desse conta de tudo. Encontrou algo mais modesto e, por isso, mais verdadeiro: viveu, enfim. Não porque o sentido finalmente chegou pronto, mas porque parou de esperá-lo parado na soleira da porta. O sentido que antes buscava como destino tornou-se, simplesmente, o que ia se formando enquanto ele se movia.
∴
Aquilo que ele chamava de destino selado, a derrota já traçada, a vida como prisão sem saída, não era, no fim, mais do que a leitura mais convincente que ele tinha conseguido fazer de seu próprio tempo. E leituras, por convincentes que sejam, podem ser refeitas. Não porque os fatos do passado mudem, mas porque o passado deixa de ser a única lente possível para o que ainda está por vir.
O que esse percurso analítico revela, e por isso vale a pena ser contado, não é uma fórmula para encontrar sentido, nem uma promessa de que toda busca será bem-sucedida. É algo mais sóbrio, e por isso mais durável: a possibilidade de que o sentido não precise vir antes para que a vida possa, enfim, acontecer.
Libertar-se da busca incessante por um fim não é deixar de buscar sentido, é descobrir que o presente é o único lugar onde, de fato, se existe. A vida deixa de ser um ponto de chegada a ser alcançado e se revela como o que talvez sempre tenha sido: um espaço aberto de possibilidades, onde recomeçar não é fracasso, mas a própria forma de quem ainda está, enfim, vivo.
Isso ressoa com algo que você vive?
A psicologia fenomenológico-existencial trabalha com a existência concreta — não com ajustes de comportamento, mas com a questão de quem você está sendo e quem quer se tornar. Se há algo em você que reconhece o peso desta pergunta, pode valer a pena conversar.
