Por que algumas pessoas estão sempre em conflito com outras? Uma compreensão fenomenológico-existencial

Há pessoas cuja trajetória parece marcada por uma intensidade difícil de conter. Suas relações frequentemente se rompem, seus posicionamentos são atravessados por confrontos, e sua forma de estar no mundo parece sempre tensionada, como se vivessem em permanente estado de luta. Por trás dessa postura, no entanto, não há apenas agressividade ou oposição gratuita, mas uma tentativa, ainda que desordenada, de afirmar existência, valor e lugar. Este artigo propõe uma reflexão a partir da minha prática fenomenológico-existencial, buscando dimensionar como esse modo de ser se constitui e, sobretudo, como é possível abrir caminhos para uma existência mais significativa, menos marcada por rupturas e conflitos recorrentes.

PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICA EXISTENCIALPSICOLOGIA EXISTENCIALAUTOSSUPERAÇÃOFENOMENOLOGIA APLICADA

Por Flávio Sousa.

4/14/20263 min ler

Shadow of a person walking on a sidewalk.
Shadow of a person walking on a sidewalk.

O caos como expressão de uma história vivida

A perspectiva fenomenológico-existencial parte de um princípio fundamental: não há comportamento vazio de sentido. Mesmo aquilo que, à primeira vista, parece disfuncional ou destrutivo, carrega uma lógica própria, uma resposta construída ao longo da história vivida.

Nesse caso, o que vemos é alguém que:

  • Percebe o mundo como um espaço de disputa constante

  • Interpreta relações sob a ótica de hierarquia (superioridade vs. inferioridade)

  • Reage de forma intensa diante de qualquer ameaça — real ou imaginada — ao seu valor

Essa forma de existir não surge do nada. Ela se constrói a partir de experiências nas quais o reconhecimento foi escasso, instável ou condicionado. Assim, o sujeito aprende, muitas vezes de forma implícita, que precisa lutar para existir.

A agressividade como tentativa de afirmação

A agressividade, nesse contexto, não deve ser compreendida apenas como um problema a ser eliminado, mas como uma tentativa, ainda que limitada, de se afirmar no mundo.

Ela pode ser entendida como:

  • Um movimento de autoproteção

  • Uma estratégia para evitar sentir-se diminuído

  • Uma forma de manter controle em situações percebidas como ameaçadoras

O paradoxo é que, ao tentar garantir seu lugar, o sujeito frequentemente acaba produzindo o efeito oposto: isolamento, rejeição e relações fragmentadas.

A percepção de inferioridade: uma verdade vivida, não um fato

Um ponto central desse modo de ser é a vivência constante de inferioridade. Importante destacar: não se trata necessariamente de uma condição objetiva, mas de uma interpretação profundamente enraizada.

Na fenomenologia, trabalhamos com a experiência tal como ela se apresenta. Ou seja:

Não importa apenas o que é "real", mas como o mundo é vivido.

Se o sujeito se percebe como inferior, ele agirá a partir dessa verdade vivida, mesmo que ela não corresponda aos fatos.

Essa percepção sustenta o ciclo:

  1. Sensação de ameaça ou desvalorização

  2. Reação agressiva ou defensiva

  3. Conflito relacional

  4. Reforço da crença de não pertencimento ou inferioridade

O trabalho fenomenológico-existencial: suspender, compreender, desvelar

Diante desse cenário, o trabalho clínico não busca corrigir comportamentos de forma direta ou impor novas formas de agir. Em vez disso, propõe um caminho de compreensão profunda.

1. Suspensão de julgamentos

O primeiro movimento é suspender explicações prontas e rótulos. Isso permite que o sujeito:

  • Se escute sem imediata condenação

  • Reconheça a coerência interna de sua própria história

  • Saia da lógica de “certo vs. errado”

2. Descrição da experiência

Em seguida, convida-se a pessoa a descrever sua experiência:

  • Como ela percebe o outro?

  • O que sente antes de reagir?

  • Que significados atribui às situações?

Esse processo amplia a consciência sobre padrões que antes operavam de forma automática.

3. Desvelamento de sentidos

Ao aprofundar a descrição, novos sentidos começam a emergir:

  • A agressividade pode revelar medo

  • A oposição pode esconder necessidade de reconhecimento

  • O conflito pode expressar uma busca por vínculo

Aqui, o sujeito começa a perceber que sua forma de existir, embora limitada, foi uma tentativa legítima de lidar com sua história.

Abrindo novas possibilidades de existência

A transformação não ocorre por imposição, mas pela ampliação de possibilidades.

Quando o sujeito compreende seu modo de ser, ele pode:

  • Reconhecer que não está condenado a repetir os mesmos padrões

  • Experimentar novas formas de relação

  • Tolerar a vulnerabilidade sem recorrer automaticamente ao confronto

Isso não significa eliminar conflitos, mas mudar a forma de se relacionar com eles.

Da luta constante ao encontro possível

Talvez o ponto mais importante desse trabalho seja deslocar a ideia de vida como batalha permanente para a possibilidade de encontro.

Encontro com:

  • O outro, não como ameaça, mas como alteridade

  • A própria história, não como prisão, mas como narrativa passível de ressignificação

  • Novas formas de existir, menos rígidas e mais abertas

A pessoa que antes vivia em constante oposição pode começar a experimentar algo radicalmente diferente: a possibilidade de não precisar lutar o tempo todo para existir.

Considerações finais

Aquele que vive em caos não é, em essência, caótico. Ele está respondendo, com os recursos que tem, a uma história que o atravessa.

O trabalho fenomenológico-existencial não promete soluções rápidas, mas oferece algo mais profundo: a possibilidade de compreensão. E, a partir dela, a liberdade, não de deixar de ser quem se é, mas de tornar-se mais do que se foi até aqui.

Porque, mesmo nas histórias mais marcadas por rupturas, há sempre a possibilidade de um novo modo de existir.