Todo Inconsciente É Consciência: a transparência radical da subjetividade.
O objetivo aqui não negar que algo em nós escape, todos os dias, à reflexão. Mas rejeitamos que isso seja um porão psíquico opaco, governado por forças que desconhecem a si mesmas. A diferença entre as duas coisas — pequena no papel — muda tudo na forma como se escuta alguém.
SARTRE E PSICOLOGIA
Flávio Sousa · Psicólogo CRP 02/21.404
12/3/20246 min ler
Você chama o novo parceiro pelo nome do antigo. Ou esquece, justamente, o compromisso que mais temia. Ou diz uma frase e só percebe, no silêncio que se segue, que ela revelou algo que preferia não ter dito. O reflexo quase automático, hoje, é nomear isso de uma palavra só: inconsciente. Como se houvesse, em algum porão da mente, algo que soubesse de nós mais do que nós mesmos — e que escolhesse, de vez em quando, falar por trás das nossas costas.
Sartre passou boa parte de sua obra mostrando por que essa imagem, sedutora como é, não resiste a um exame rigoroso. Não porque ele negue que algo em nós escape à reflexão, isso ele jamais negaria. Mas porque a explicação corrente confunde duas coisas que precisam ser mantidas separadas: não saber alguma coisa de si e não ser consciente dela. São coisas diferentes. E essa diferença, longe de ser um detalhe acadêmico, decide como um psicólogo escuta (ou deixa de escutar) quem está à sua frente.
O paradoxo de um saber que ignora a si mesmo.
A imagem do inconsciente freudiano pressupõe uma espécie de funcionário interno: o censor. É ele que decide o que pode emergir à consciência e o que deve ser reprimido, mantido na escuridão. Mas Sartre identifica, nessa imagem, uma contradição que a maioria das pessoas nunca chega a perceber, exatamente porque a metáfora é visualmente eficiente demais para ser questionada.
Para que o censor reprima algo, ele precisa, antes, saber o que está reprimindo, precisa reconhecer o conteúdo perigoso para distingui-lo do inofensivo e bloquear apenas o primeiro. Mas, se ele sabe o que reprime, em que sentido esse conteúdo está realmente inconsciente? E se ele não sabe (se age às cegas) como explicar a precisão cirúrgica com que certos conteúdos, e não outros, são mantidos fora do alcance da reflexão?
Seria possível conceber um saber ignorante de si?
Jean-Paul Sartre, O Ser e o Nada
É essa pergunta, formulada com a precisão de quem já viu o problema por todos os ângulos, que sustenta toda a crítica sartreana. Um saber que se ignora a si mesmo não é um saber mais profundo, é uma contradição em termos. E se a contradição está na própria base da hipótese, talvez o problema não seja encontrar o mecanismo certo do inconsciente. Talvez seja a própria hipótese.
Consciência não é a mesma coisa que conhecimento.
Aqui está o ponto mais fino de toda essa discussão, e o que se perde quase sempre quando essa tese é repetida de forma apressada. Dizer que não há inconsciente nos termos freudianos não é dizer que tudo o que vivemos, sabemos. Sartre distingue, com cuidado, duas coisas que o senso comum trata como sinônimas: consciência e conhecimento.
Husserl já havia estabelecido que toda consciência é consciência de alguma coisa, é sempre relação, sempre voltada para um objeto, nunca um recipiente fechado sobre si. Sartre herda esse princípio e o radicaliza: a consciência é coextensiva ao psíquico. Não existe, em nós, nenhum fato psíquico que não seja, de algum modo, vivido conscientemente. Mas viver algo conscientemente, de forma não-reflexiva, no calor da própria ação, não é o mesmo que conhecê-lo, nomeá-lo, tê-lo diante de si como objeto de reflexão.
Há, portanto, um espaço real entre o que se vive e o que se sabe que se vive. Não é um porão escondido; é antes uma luz tão imediata, tão colada à própria ação, que ainda não foi possível dar um passo atrás para enxergá-la com nitidez. A pessoa que esquece o compromisso que temia não escondeu esse temor de si mesma num cofre psíquico. Ela viveu o temor plenamente, de forma vivida, sem que esse temor tivesse sido ainda trazido à reflexão, articulado em palavras, reconhecido como aquilo que era.
É essa distinção, e não a simples negação de qualquer coisa "oculta", que sustenta a tese. O que falta, nesses episódios, não é informação escondida. É o trabalho de reflexão que transformaria o vivido em conhecido — e é exatamente esse trabalho que a psicanálise existencial, da qual já tratamos em outros textos deste blog, se propõe a realizar.
O "eu" não é um cofre. É algo que se constrói de fora.
Há uma segunda confusão comum que vale desfazer aqui: a ideia de que, sem inconsciente, o "eu" se torna um núcleo fixo, transparente e totalmente conhecido de uma só vez. Sartre nunca defendeu isso, e a razão é tecnicamente precisa, não apenas uma intuição.
Conceito central · Sartre
O Eu não habita a consciência. Aparece nela.
Em A Transcendência do Ego, Sartre já havia estabelecido que o ego — o "eu" que dizemos possuir — não é um habitante da consciência, algo que estaria lá dentro, à espera de ser descoberto. É um objeto transcendente, constituído a posteriori pela própria reflexão, da mesma forma que um personagem só existe completo depois de a história ter sido contada até o fim.
Por isso o "eu" não é fixo: não porque seja indefinido ou líquido demais para qualquer descrição, mas porque é constituído, retroativamente, a cada novo ato refletido. Ele não estava lá antes, esperando para ser revelado. Vai se formando à medida que a consciência se volta sobre o que já viveu.
Essa é uma diferença enorme em relação à ideia de "construção contínua na interação com o mundo" tal como costuma circular de forma vaga. Não é apenas que o eu muda com a experiência, isso quase toda psicologia aceitaria. É que o eu, estruturalmente, nunca foi um habitante interior algum. Ele sempre esteve do lado de fora, como objeto, e não como sujeito que olha.
Então o que explica o autoengano? A má-fé, não dois andares da mente.
Se não há um inconsciente que mente para a consciência por trás de suas costas, como explicar algo tão comum quanto mentir para si mesmo? A pergunta é justa, e Sartre não a contorna, responde com um conceito que já tratamos em profundidade neste blog: a má-fé.
O modelo freudiano precisa de dois andares para explicar o autoengano: um que esconde (o inconsciente, ou o id, mediado pelo censor) e outro que é enganado (o ego consciente). São duas instâncias psíquicas distintas, quase duas pessoas dentro de uma só cabeça. Sartre elimina essa duplicação. Para ele, é a mesma e única consciência que, num só movimento, afasta de si uma verdade e finge, perante si mesma, não tê-la afastado. Não há enganador e enganado. Há uma única consciência que se divide, momentaneamente, na própria forma de se relacionar consigo, sem precisar de nenhum departamento oculto para isso.
É uma explicação mais econômica, e também mais exigente: ela não permite que ninguém se isente do próprio autoengano dizendo "foi o meu inconsciente". Foi a própria consciência, lidando mal, num instante, com algo que não quis encarar de frente.
Onde essa tese encontra seu limite mais honesto.
Seria pouco rigoroso fechar este texto sem reconhecer onde essa tese é mais contestada, porque é exatamente aí que ela se torna mais interessante, e não menos. Fenômenos como dissociação severa, memórias traumáticas que retornam de forma fragmentada e involuntária, ou certos automatismos do corpo, parecem, à primeira vista, exigir algo mais opaco do que "consciência ainda não refletida". A crítica é legítima, e segue sendo debatida por quem trabalha seriamente com a obra de Sartre.
A resposta sartreana, sem pretender encerrar o debate, é que mesmo nesses casos mais extremos, o que está em jogo não é uma informação genuinamente desconhecida da pessoa, mas uma vivência tão intensa, tão saturada, que a reflexão não consegue se distanciar dela o suficiente para nomeá-la. A diferença pode parecer sutil. Clinicamente, não é: tratar algo como informação trancada num cofre leva a buscar a chave certa. Tratar como vivência ainda não articulada leva a criar, com a pessoa, as condições para que essa articulação finalmente aconteça devagar, no tempo dela, e não por interpretação de quem escuta.
É, mais uma vez, o respeito fenomenológico ao que a própria pessoa vive, e não uma teoria pronta sobre o que ela deveria estar escondendo de si mesma.
Não há, então, nada em você que seja, em princípio, definitivamente inacessível a você mesmo. Pode haver e há, quase sempre, muito que ainda não foi trazido à luz da reflexão. A diferença entre essas duas frases é exatamente a distância entre passar a vida esperando que um especialista decifre um código oculto, e passar a vida fazendo, devagar, o trabalho de tornar refletido o que já se vive.
Esse trabalho tem nome. Sartre o chamou de psicanálise existencial — e é sobre ele que este blog não para de voltar.
Nada em você precisa permanecer obscuro para sempre.
Se há algo que você vive sem ainda conseguir nomear, isso não é um enigma trancado fora do seu alcance. É um trabalho — e pode ser feito a duas pessoas.
