Você não está ansioso. Você está vivo.

Sobre a diferença entre o que o seu corpo grita e o que a sua existência sussurra há muito mais tempo.

ANSIEDADE

Por Flávio Sousa

4/27/20264 min ler

  • A angústia é a tonalidade afetiva fundamental do ser humano.
    Ela não nos adoece. Ela nos acorda.— Martin Heidegger

Tinha uns oito anos quando percebi que o mundo era grande demais para caber dentro do meu peito.

Não sabia nomear isso. Ninguém sabia. Minha mãe dizia que eu era "sensível demais". A professora dizia que eu "pensava demais". Eu achava que tinha alguma coisa errada comigo — um parafuso frouxo, uma peça faltando, uma versão defeituosa de gente.

Levei anos acreditando nisso.

· · ·

Você provavelmente conhece essa sensação. Não necessariamente a mesma história, mas o mesmo peso. Aquela coisa que mora no meio do peito e que não tem nome certo. Às vezes é um aperto. Às vezes é uma inquietação que não passa nem com exercício, nem com série, nem com mais uma hora de sono. Às vezes é aquela pergunta que você não consegue formular direito, mas que está sempre lá:

O que é isso que eu estou sentindo?

E aí vem o diagnóstico. Ansiedade. A palavra que explica tudo e, ao mesmo tempo, não explica nada.

  • Ansiedade virou o nome que a gente dá para tudo o que sente
    e não consegue entender.

Taquicardia antes de uma reunião. Aquele nó na garganta quando você precisa falar algo difícil. O pensamento que dispara sozinho às duas da manhã. Os tiques, a respiração curta, o corpo que treme num corredor vazio. A lista de sintomas é longa, e ela é real — ninguém está inventando o que sente.

Mas se você descobrisse que por baixo de tudo isso existe algo mais antigo? Algo que não é patologia, não é fraqueza, não é falha?

Algo que é, simplesmente, o que significa ser humano?

· · ·

Existe um conceito na filosofia que poucos médicos mencionam e que nenhum aplicativo de bem-estar vai te ensinar: angústia ontológica.

Uma nota sobre a palavra

  • Ontológica vem do grego ontos — "ser". Ontologia é o estudo do que significa existir. Dizer que algo é ontológico é dizer que pertence à estrutura mesma da existência. Não é algo que acontece com você. É algo que faz parte do que você é. A angústia, nesse sentido, não é uma doença. Ela não é o sintoma de uma vida que deu errado. Ela é a resposta natural — e inevitável — de uma consciência que percebe, mesmo que vagamente, que existe. Que é livre. Que vai morrer. Que é responsável por escolhas que nunca têm garantia.

Sartre chamava isso de vertigem da liberdade. Heidegger chamava de o chamado do ser. Kierkegaard, o precursor da psicologia existencial, foi mais direto: a angústia, disse ele, é a tonalidade de quem se descobre livre e não sabe o que fazer com isso.

Você não estava com pânico. Você estava acordada.

· · ·

A ansiedade, por sua vez, é quando essa angústia — que é livre, difusa, sem objeto — encontra um rosto. Um lugar para pousar. Ela se cola numa situação, num relacionamento, numa prova, num futuro imaginado. E aí o corpo responde como se aquilo fosse um perigo real: cortisol, adrenalina, coração acelerado, músculos tensos, mente em alerta máximo.

É a angústia que ganhou endereço.

Não estou dizendo que os sintomas de ansiedade são "só filosofia". Eles são físicos, são reais, e merecem cuidado. Estou dizendo que tratar apenas os sintomas — sem entender o que está por baixo — é como desligar o alarme sem verificar se há fumaça.

  • Tratar o sintoma sem ouvir o que ele está tentando dizer
    é calar a voz mais honesta que você tem.

E o que essa voz costuma dizer? Coisas como: Eu não sei quem eu sou fora das expectativas dos outros. Eu tenho medo de que minha vida não signifique nada. Eu não sei como estar presente sem me perder. Eu sinto, mas não sei nomear o que sinto.

Isso não é transtorno. É existência.

· · ·

A diferença importa porque muda o que precisa ser feito.

Se ansiedade é este conjunto de sintomas, o trabalho é eliminar os sintomas? Se ansiedade é a forma que a angústia encontrou para falar com você, o trabalho é aprender a ouvir. A entender o que a sua existência está tentando dizer — e responder com algo além da supressão.

Isso é o que faço no meu trabalho clínico. Não venho com um protocolo para silenciar o que você sente. Venho com uma escuta que acredita que o que você sente tem sentido — mesmo quando não parece ter forma.

A fenomenologia existencial — abordagem que orienta minha prática — parte exatamente desse princípio: antes de classificar o que o paciente traz, é preciso habitar com ele o que ele está vivendo. Ver o mundo a partir de dentro da experiência dele, não de fora.

Não é uma terapia de respostas rápidas. É um processo de encontro com o que você é, com o que evita ser, e com o que talvez ainda não saiba que pode ser.

· · ·

Sabe o que me toca até hoje? Que a maioria das pessoas que chega até mim com "ansiedade" não está doente.

Está acordada. Está sentindo demais numa cultura que premia entorpecer. Está fazendo perguntas que não encontram espaço em lugar nenhum. Está viva de um jeito que assusta — porque viver de verdade sempre assusta um pouco.

E quando eu digo isso — que a angústia é condição, não falha — você sabe o que acontece?

As pessoas choram de alívio.

Não porque resolveu. Mas porque, pela primeira vez, alguém disse que o que elas sentem, faz sentido. Que não é fraqueza. Que não é exagero. Que é humano.

E a partir daí — a partir desse primeiro momento de reconhecimento — é que o trabalho real começa.

· · ·

Você que chegou até aqui: o que você está sentindo tem nome. Tem história. Tem profundidade. E merece muito mais do que uma lista de técnicas.

Merece ser ouvido.

Flávio Sousa

Psicólogo Clínico · CRP-02/21.404 · Fenomenologia Existencial

Atendo pessoas que sentem muito e não sabem muito bem onde colocar esse sentir. Minha prática é orientada pela fenomenologia existencial — uma abordagem que entende o sofrimento humano a partir de dentro da experiência, não de fora dela.

anxiety
anxiety

Se este texto tocou em algo que você carrega há tempos, talvez valha a pena conversar.